quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Depois de fechar o cadeado. 2

-“Senhoras e senhores...”. Mais um dia de Circo na cidade... A sessão das seis está lotada. "E com vocês O Grandioso, O Magnífico...". Ah é a vez do mágico. Você está atrás das cortinas assistindo ao espetáculo. Ele faz o seu primeiro truque. O coelho pula da cartola. "OHHHHHHH". Em seu próximo truque ele precisa de um ajudante. Chama alguém da platéia. O truque agora é com o baralho. Quando pôs a mão no baralho lembrou-se. Passou a noite passada toda jogando as cartas na cartola. Não as arrumou para o truque. E agora não pode fazê-lo. Seu ajudante é um adulto. Sim. Dá tudo errado. Vaias. Você se entristece. Como pode um mágico errar a mágica?

Chegou-se ao final do último espetáculo do dia. Você então varre o picadeiro. Percebe uma lâmpada queimada e trata de trocá-la. Você acabou de trancar o cadeado. Está andando para o seu velho trailer. E então pára e espia atrás de uma caixa. A cena é a seguinte: O palhaço está sem maquiagem de barba bem feita. Está sóbrio. A bailarina não se agüenta em pé de dor. O mágico está sem paletó, drogado. Já é a centésima vez que ele pede à bailarina para que escolha uma carta do baralho. De repente um gato passa correndo do seu lado. Você se assusta. A lâmpada cai e quebra. E então se esconde atrás da caixa para que não notem você ali. Tarde demais. O palhaço te viu. Ele então vem andando com seus enormes sapatos. Um passo um tanto sem ritmo. De repente os passos param. Você sai pra ver o que aconteceu e nada. Quando volta pra trás da caixa o palhaço esta lá. Ele estende a mão para te cumprimentar. Você aperta a mão dele. Leva um choque. “– Perdão senhor. É que não consigo me livrar de certas manias. Ta vendo aquele lá? Ele não sente o cheiro de mais nada. A cocaína já o destruiu. Está frustrado consigo mesmo. Não sabe lidar com falhas. Então inspira qualquer coisa por ai e distorce um pouco a realidade. Quanto a mim, sou só um palhaço. Tenho os meus vícios, mas como ainda não inventaram nenhuma Associação de Palhaços Alcoólatras, continuo a beber. Bebo minha bebida e não minha lucidez. Aquele, cada vez que inspira, expira um pedaço da alma. E você trate de limpar os cacos de vidro alguém pode se cortar. Vá dormir velho. Já é tarde."

-“Senhoras e senhores...”. Mais um dia de Circo na cidade...

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Depois de fechar o cadeado.

Os pais hoje resolveram, um tanto quanto forçados, ir ao circo. As crianças logo se animaram. Palhaços, Mágicos, Tecidos, Malabares. Bem. Chegaram. Sentaram-se bem perto do picadeiro. As crianças para verem de perto cada movimento dos palhaços, admirarem o vôo das bailarinas e se encantarem com simples passes de mágica. Já os pais, para repararem nas maquiagens manchadas dos palhaços, ficarem procurando a invisível corda que segura as bailarinas no ar e manterem os olhos atentos a cada passe de mágica. (Sim. Os adultos são CHATOS. Ah convenhamos, se você vai a um Stand up comedy é pra rir, se vai a um jogo de futebol é pra torcer, se vai a um show de mágica é pra ser ENGANADO. Droga. Eles Ficam tentando desmistificar tudo. Acham que a vida é como as provas que eles têm pra corrigir em casa. As crianças atingem certa idade e deixam de acreditar em Papai-noel, coelhinhos da páscoa. E logo se acostumam a desvendar todas as coisas mágicas que acontecem na vida. E por fim se tornam adultos CHATOS.).

Chegou-se ao final do último espetáculo do dia. E agora Você entra na história. É você. Você é o zelador. O último a sair do circo. Você acabou de trancar o cadeado. Está andando para o seu velho trailer. E então pára e espia atrás de uma caixa. A cena é a seguinte: O palhaço, a bailarina e o mágico sentados ao redor de uma mesa. O palhaço, coitado, não tinha nem tirado a maquiagem. Estava embriagado. A bailarina não se agüenta em pé de dor. O mágico brinca com as cartas. Por um acaso qualquer você espirra. E então se esconde atrás da caixa para que não notem você ali. Tarde demais. O mágico te viu. Ele então vem andando calmamente pra ver quem esta ali. Você ouve os passos. De repente os passos param. Você sai pra ver o que aconteceu e nada. Quando volta pra trás da caixa o mágico está lá. (Não se segure você se assustou!). “- Estava olhando os artistas ou as pessoas? O que procura? Magia ou embriaguez? Não se espante. Poucos compreendem. Acham que o suor não mancha a maquiagem. Não sei como não se acostumou a ver isso por aqui. A cada palhaço novo um vício diferente. Quanto a mim,sou só um mágico. As vezes tenho preguiça de tirar o paletó. Muita coisa por baixo das mangas. Vá dormir velho. Já é tarde."

-" Senhoras e senhores...". Mais um dia de Circo na cidade...