-“Senhoras e senhores...”. Mais um dia de Circo na cidade... A sessão das seis está lotada. "E com vocês O Grandioso, O Magnífico...". Ah é a vez do mágico. Você está atrás das cortinas assistindo ao espetáculo. Ele faz o seu primeiro truque. O coelho pula da cartola. "OHHHHHHH". Em seu próximo truque ele precisa de um ajudante. Chama alguém da platéia. O truque agora é com o baralho. Quando pôs a mão no baralho lembrou-se. Passou a noite passada toda jogando as cartas na cartola. Não as arrumou para o truque. E agora não pode fazê-lo. Seu ajudante é um adulto. Sim. Dá tudo errado. Vaias. Você se entristece. Como pode um mágico errar a mágica?
Chegou-se ao final do último espetáculo do dia. Você então varre o picadeiro. Percebe uma lâmpada queimada e trata de trocá-la. Você acabou de trancar o cadeado. Está andando para o seu velho trailer. E então pára e espia atrás de uma caixa. A cena é a seguinte: O palhaço está sem maquiagem de barba bem feita. Está sóbrio. A bailarina não se agüenta em pé de dor. O mágico está sem paletó, drogado. Já é a centésima vez que ele pede à bailarina para que escolha uma carta do baralho. De repente um gato passa correndo do seu lado. Você se assusta. A lâmpada cai e quebra. E então se esconde atrás da caixa para que não notem você ali. Tarde demais. O palhaço te viu. Ele então vem andando com seus enormes sapatos. Um passo um tanto sem ritmo. De repente os passos param. Você sai pra ver o que aconteceu e nada. Quando volta pra trás da caixa o palhaço esta lá. Ele estende a mão para te cumprimentar. Você aperta a mão dele. Leva um choque. “– Perdão senhor. É que não consigo me livrar de certas manias. Ta vendo aquele lá? Ele não sente o cheiro de mais nada. A cocaína já o destruiu. Está frustrado consigo mesmo. Não sabe lidar com falhas. Então inspira qualquer coisa por ai e distorce um pouco a realidade. Quanto a mim, sou só um palhaço. Tenho os meus vícios, mas como ainda não inventaram nenhuma Associação de Palhaços Alcoólatras, continuo a beber. Bebo minha bebida e não minha lucidez. Aquele, cada vez que inspira, expira um pedaço da alma. E você trate de limpar os cacos de vidro alguém pode se cortar. Vá dormir velho. Já é tarde."
-“Senhoras e senhores...”. Mais um dia de Circo na cidade...
